Redes sociais e ciúmes: quando o conflito digital revela questões emocionais mais profundas
As redes sociais realmente causam crises nos relacionamentos — ou apenas revelam inseguranças que já estavam presentes? Nesta matéria, analisamos sob uma perspectiva psicanalítica como o ciúme, o sentimento de posse e o medo de abandono podem encontrar no ambiente digital um palco para se manifestar. Curtidas, comentários e postagens muitas vezes se tornam o foco do conflito, quando, na verdade, o que está em jogo são questões emocionais mais profundas. Refletir sobre o uso das redes, estabelecer acordos de convivência digital e compreender o que cada situação desperta internamente são passos fundamentais para relações mais maduras e equilibradas. 🔎 Leia a matéria completa e aprofunde essa reflexão.
PSICANÁLISE
Luciano Melo
2/24/20262 min read


O aumento das discussões entre casais por causa das redes sociais tem se tornado cada vez mais frequente nos consultórios. Curtidas, comentários, novos seguidores e interações aparentemente banais acabam ganhando proporções desmedidas dentro da relação. Mas a pergunta que se impõe é: o problema está realmente na rede social?
Sob uma perspectiva psicanalítica, é importante compreender que a tecnologia não cria sentimentos — ela os revela. A rede social funciona, muitas vezes, como um palco onde inseguranças, fantasias, medos de abandono e sentimentos de posse encontram um espaço de projeção.
O ciúme, enquanto afeto humano, não é necessariamente patológico. Ele pode sinalizar investimento emocional e desejo de preservação do vínculo. Contudo, quando surge de forma constante, desproporcional ou baseado em elementos mínimos — como uma curtida ou um comentário neutro — passa a indicar algo que ultrapassa o fato concreto.
Nesses casos, não é a interação digital que está em questão, mas o significado inconsciente atribuído a ela. O que exatamente aquela cena virtual desperta? Medo de ser substituído? Sensação de insuficiência? Recordações de experiências anteriores de rejeição? Muitas vezes, o outro torna-se depositário de angústias que têm raízes mais antigas.
Outro ponto relevante é a confusão entre demonstração de afeto e exposição. Para algumas pessoas, publicar uma foto juntos ou declarar carinho publicamente é uma forma legítima de expressar admiração. Para outras, a ausência dessas manifestações pode ser vivida como desinteresse. O conflito surge quando não há diálogo claro sobre expectativas e limites.
A psicanálise nos ensina que o excesso de vigilância e controle frequentemente encobre insegurança interna. Quando pequenos acontecimentos digitais são ampliados de maneira desproporcional, estamos diante de um deslocamento: algo interno encontra no ambiente virtual um objeto conveniente para se manifestar.
Isso não significa que o casal deva ignorar incômodos. Pelo contrário. É fundamental conversar abertamente sobre o uso das redes sociais, especialmente no início da relação. Estabelecer parâmetros de convivência digital — o que é confortável para ambos, o que gera desconforto, quais são os limites de exposição — pode fortalecer a confiança mútua. Esses acordos não devem ser imposições, mas construções baseadas em escuta e respeito.
Mais do que discutir a rede social em si, talvez seja necessário perguntar: o que este sentimento está dizendo sobre mim? Relações maduras exigem autoconhecimento. Quando cada parceiro assume responsabilidade por compreender suas próprias emoções, o ambiente digital deixa de ser campo de batalha e passa a ser apenas mais um espaço da vida compartilhada.
No fim, o conflito raramente está na tela. Ele costuma estar nas dinâmicas inconscientes que pedem reconhecimento e elaboração.
Texto: Luciano Melo