Quando a sessão parece não avançar

A repetição como via do processo analítico

Luciano Melo

12/29/20252 min read

Quando a sessão parece não avançar: a repetição como via do processo analítico

É relativamente comum que, em determinados momentos da terapia, o paciente tenha a sensação de que a sessão “não está andando”. Surge a impressão de que os encontros giram sempre em torno dos mesmos temas, das mesmas queixas, das mesmas histórias. Para muitos, isso é vivido como frustração, tédio ou até como um sinal de que a análise não está funcionando.

Na psicanálise, no entanto, essa percepção merece uma escuta cuidadosa.

Freud nos ensinou que o sujeito não apenas se lembra: ele repete. Em Recordar, Repetir e Elaborar (1914), Freud descreve que aquilo que não pode ser lembrado ou simbolizado tende a reaparecer na forma de repetição. Ou seja, quando um paciente retorna incessantemente aos mesmos assuntos, isso não indica ausência de trabalho analítico, mas justamente a presença de um núcleo psíquico ainda não elaborado.

A repetição não é um erro do processo — ela é parte estruturante dele.

O paciente frequentemente acredita que está “preso” ao mesmo tema, quando, na realidade, está orbitando em torno de um ponto de resistência. Algo insiste porque ainda não pôde ser plenamente reconhecido, assumido ou resignificado. O que se repete não é apenas o conteúdo do discurso, mas uma posição subjetiva diante do próprio sofrimento.

Nesse sentido, a continuidade nos mesmos assuntos não aponta para uma falha da sessão, mas para um impasse interno do próprio paciente. O inconsciente não se revela por atalhos; ele se mostra por insistência.

O papel do analista não é oferecer respostas prontas nem conduzir o paciente a conclusões artificiais. Cabe ao analista sustentar a escuta, indicar os pontos de repetição, nomear os movimentos que se reiteram, apontar os lugares onde o sujeito se fixa — e, a partir disso, abrir caminhos para que o próprio analisando possa se posicionar de outra forma.

Freud afirmava que a elaboração (Durcharbeitung) é um processo lento, que exige tempo e tolerância à repetição. Muitas vezes, o paciente precisa dizer a mesma coisa inúmeras vezes até que, em algum momento, algo se desloque. Esse deslocamento não ocorre por imposição externa, mas quando o sujeito, por livre e espontânea vontade, consegue perceber o que o mantém preso àquela dinâmica.

A repetição, portanto, não é estagnação — é trabalho psíquico em curso.

Quando a sessão parece “igual às outras”, é justamente ali que algo está sendo preparado. A análise avança não quando o discurso muda rapidamente, mas quando o sujeito começa a se escutar de forma diferente. E isso, muitas vezes, só se torna possível após atravessar a repetição até seu limite.

Na psicanálise, progresso não se mede pela novidade dos temas, mas pela transformação da posição subjetiva diante deles. Onde antes havia apenas queixa, pode surgir responsabilização. Onde havia repetição cega, pode surgir compreensão. Onde havia resistência, pode surgir escolha.

Confiar no processo analítico é aceitar que, em certos momentos, avançar significa permanecer — até que algo, enfim, possa se mover.