O silêncio na sessão

Quando não falar também é dizer

Luciano Melo

12/29/20252 min read

O silêncio na sessão: quando não falar também é dizer

Em algum momento do processo analítico, o silêncio pode se instalar. O paciente chega à sessão e, diante do analista, percebe que as palavras não vêm. Surge o desconforto, a sensação de vazio, a dúvida: “não tenho nada para dizer”, “estou desperdiçando a sessão”, ou ainda “algo está errado”. Para muitos, o silêncio é vivido como falha, resistência ou ausência de conteúdo.

Na psicanálise, porém, o silêncio não é ausência de trabalho — ele é trabalho.

Freud nos mostra que o inconsciente não se manifesta apenas pela palavra, mas também por suas interrupções. O que não é dito, o que emperra, o que se cala, frequentemente aponta para zonas de conflito, de angústia ou de resistência. O silêncio, nesse sentido, não significa que nada está acontecendo, mas que algo está acontecendo fora do campo da fala imediata.

Quando o paciente se cala, não raro está diante de um ponto onde o discurso encontra um limite. Algo não pode ainda ser simbolizado, organizado ou assumido. O silêncio marca esse limiar. Ele indica que o sujeito se aproxima de conteúdos que provocam medo, vergonha, culpa ou desorganização psíquica.

Assim como na repetição, o silêncio não deve ser apressado ou forçado a desaparecer.

O papel do analista não é preencher esse espaço com explicações ou conduções excessivas. Cabe ao analista sustentar o silêncio, escutá-lo, reconhecer sua função e, quando necessário, pontuar aquilo que se anuncia nesse intervalo. O silêncio é um lugar de escuta, não de abandono.

Freud já indicava que o trabalho analítico exige tolerância à frustração e ao não saber. A elaboração psíquica não ocorre apenas no fluxo contínuo da fala, mas também nas pausas, nas hesitações e nos vazios que a linguagem não alcança de imediato. O silêncio permite que o sujeito se confronte consigo mesmo sem a mediação constante das palavras.

Muitas vezes, é no silêncio que o paciente percebe o quanto evita determinados temas, o quanto espera do analista uma autorização, uma resposta ou um alívio. O silêncio revela expectativas, dependências e posicionamentos subjetivos. Ele coloca o paciente diante da própria responsabilidade pelo que deseja dizer — ou não dizer.

Na clínica psicanalítica, o silêncio não é inimigo da análise. Ele pode ser o terreno onde algo começa a se organizar internamente, ainda sem forma, ainda sem nome. Forçar a fala nesse momento pode interromper um processo que está em curso.

Falar é importante. Mas saber permanecer em silêncio, quando ele se impõe, também é parte fundamental do percurso analítico. O silêncio, sustentado no vínculo, muitas vezes prepara a palavra que ainda não pode ser dita.

Na análise, até mesmo o silêncio fala — desde que seja escutado.